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Luto, clínica e tempo

  • Foto do escritor: Horácio Amici
    Horácio Amici
  • 14 de jun. de 2020
  • 2 min de leitura

“O luto é um processo que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor”. Foi assim que Freud definiu o processo de luto em 1917.


No senso comum, entende-se que o processo de luto seria restrito à perda de pessoas importantes, porém deve-se vê-lo de forma mais ampla: a perda de qualquer objeto no qual investimos psiquicamente (um emprego, uma antiga casa, um relacionamento…)


Autores começaram a tentar entender melhor como seria, para os sujeitos, esse processo para lidar com essas perdas importantes. Elisabeth Kübler-Ross foi uma psiquiatra que nasceu na Suíça. Sua obra mais reconhecida é “On Death and Dying”, texto em que ela propõe o Modelo Kübler-Ross.


Nesse modelo, a autora descreve cinco estágios pelos quais as pessoas passariam ao lidar com uma perda importante: 1) negação (“isso não pode estar acontecendo”), 2) raiva (“eu não aceito que isso está acontecendo”), 3) barganha (“se eu fizer algo, isso pode ser revertido”), 4) depressão (“estou tão triste que não consigo me preocupar com outra coisa”) e 5) aceitação (“reconheço a falta e vou ter que lidar com ela”)


A autora aponta, porém, que não necessariamente todas as pessoas passam por todas as fases, mas que, na observação ao longo de sua vida profissional com seus pacientes, que essa seria a melhor forma de descrever esse processo.


Luto, nesse sentido, pode ser visto como temporalidade: tempo que o sujeito precisa para elaborar a perda pela qual está passando. Em uma sociedade em que medicalizamos o mal estar, exigimos que os sujeitos performem produtividade e uma constante felicidade, que tempo é reservado para as nossas perdas?


Que a clínica seja um espaço para esses lutos e também para outros ainda mais sutis. Terapia também como temporalidade - tempo que nos autorizamos a de fato acolher e estar próximos do que somos e também daquilo que perdemos e que nem tivemos possibilidade de reconhecer como falta.

 
 
 

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