Uma arqueologia do si mesmo
- Horácio Amici

- 20 de jun. de 2020
- 1 min de leitura
Freud, em 1937, escreve um texto muito bonito, entitulado “Construções em análise”. Nele, o autor faz um paralelo entre o processo analítico e o trabalho da arqueologia: investigar - através daquilo que ficou (aquilo que pôde ficar?) - vestígios que permitam reconstruir fragmentos importantes que não puderam se preservar.
A tarefa do analista seria a de completar aquilo que foi esquecido pelo analisando através dos traços que este vai transmitindo, deixando escapar. Trabalho, Freud aponta, que é de um movimento de construção, ou melhor, de reconstrução daquilo que cada sujeito acolhe em si como si mesmo.
É nesse movimento de escuta de si que o sujeito historiciza a si mesmo - de um modo radical e, curiosamente, também sútil. Historicizar-se, acessar uma narrativa de si que, por diversos atravessamentos, nunca pôde ter espaço.
As histórias de si têm caminhos próprios, fluxos e passagens que estão fora do já posto e predito, no sentido de já poder apresentar antes mesmo de ir se fazendo. Histórias que se constroem por brechas, fissuras. Aberturas em si.
Histórias de si como uma espécie de cartografia do impossível: lançar traços daquilo que, ainda em movimento - no meio do caminho - engendra-se como topografia. Caminhos que se fazem no embate com o corpo do discurso: só posso ser aquilo que encontro em mim enquanto narrativa subjetiva.
Uma arqueologia do si mesmo, em que aquilo que se busca (se encontra?) está sempre escapando, refazendo-se em percursos. A verdade de si é uma reconciliação com aquilo que é subjetividade em mim enquanto discurso.
Escavar a si mesmo e encontrar essa faceta última de mim que é encontro, passagem, narrativa que se perfaz, circulando-se em si mesma.



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